quinta-feira, 23 de abril de 2009

Eu sei que vou te amar.

Nosso
Amor puro
Pulou o muro...
(Chacal)

O que se vê,
Antes não era;
E o que era, não é
Mais.
(Leonardo da Vinci)

Você me chamou por telefone. Não te vejo há três meses... seis anos juntos e agora sem te ver...pela tua voz no telefone, sei que você está controlando uma emoção , querendo bancar um homem seguro de si... e mesmo assim fico desesperada porque mesmo assim você consegue fingir solidez e eu...e eu..ao ouvir tua voz, o mundo se acalma...

[...]

- É o seguinte: deve haver uma palavra que, uma vez dita, muda o mundo...parece que tem um rio...aí olho e tem....e quero dizer a você a verdade...eu te proponho...nada... a verdade é que...eu não sei porque te chamei aqui...acordei de manhã e tinha uma luz elétrica na minha mão...minha mão dava choque e o fone do telefone brilhava e minha mão foi atraída pelo fone e eu tenho que absolutamente te falar...eu tenho alguma coisa pra te falar e não sei o que é...quero dizer tudo, quero que minha alma saia pela boca e eu fique estatelado morto ai no tapete, feito um atropelado...nu...absolutamente visível transparente...

O que será que ele está querendo?

- Mas falar o que homem de deus?
- Falar o que agente sente um pelo outro...
- Mas agora que agente está separados? Agora que você já namorou a Rita e eu estou de caso com o ...
- Com quem?
- Com o...

Inventa um nome...O cara da bolsa...como é o nome? Silveira o dentista erótico...quem...

- Quem?
- Com o ninguém....tenho um caso com o ninguém...ainda! mas vou ter.

[...]

Arranca um pedaço do meu braço... me beija, homem...


Não, não faço nada...pra ser chupado para dentro daquele buraco negro que esta hija de puta habita? Essa tarântula tarada? Tarantela... não... não vou beijarela apesar de amarela... creo que estoy me quedando loco, carajo...


[...]


- O que me faz sofrer é que o que encheria qualquer mulher de felicidade, ou seja, ter ou não um maravilhoso amor de homem e as coisas lindas que você me diz, tudo isso me causa ansiedade e leva ao desespero. Quanto mais eu penso em me entregar para você novamente, tanto mais terror eu tenho do que seria de mim se teu amor se apagasse.
[...]

- Olha, é melhor você ir embora...
- É eu já estou indo
- Claro é melhor ...você vai embora...eu fico aqui...
- É lógico...você me...
- O que?
- Não você me desculpe eu vir aqui...te atacar, te incomodar...
- Não que nada eu que te chamei... Por que você está chorando? Não chora, minha linda.
- É tão triste, tão triste agente se separar você deixou um pijama velho no armário e eu nem tirei de lá...de noite eu vou lá espionar, virou um vicio secreto...às vezes de madrugada eu vou La olhar o pijaminha...seu pijaminha...olho e parece que... você morreu!... como é dificil..não chora você também.
- E eu..pensa que é fácil para mim?.. eu anda na rua, eu olho um letreiro e ta lá teu nome..passa uma mulher...tá La você...outro dia chorei diante de uma loja que estava escrito: “Canos e silenciosos”... não sei porque esse nome me deu uma nostalgia absurda...canos...e silenciosos...a gente está emocionado agora...mas agente quis....você quis separar, não quis?
- Eu fico falando com você...dia inteiro na rua...ando e falo com você mentalmente ao meu lado...discuto a relação sozinho, monólogo conjugal...outro dia virei para um chofer de taxi português e disse: “O que te estraga é esse seu lado Coutry Club”...para um chofer de taxi...voce acha que é so você que sofre?
- Mas você é homem! Não sabe o que é uma mulher solta no mundo..todo mundo meche...não posso tomar um mísero chope sozinha...
-Mas você não quer casar para tomar um chope sozinha...
[...]
-Você e eu quisemos nos separar com adultos...é ou não é? Seja mulher
- É...
- Então diz para mim: “ Eu me separei de você porque eu não te amo mais...”
- Eu me separei de você...
[...]
– Eu me separei de você porque...porque não...não te amo mais.
- Isto...é dura a verdade...mas a verdade é sempre revolucionária... já dizia Lênin, ou Maiakovsk...é batata! Isto...não sou mais seu homem. Você me olha e não sente mais emoção...
- é... eu te olho e não sinto mais...
- não sente o que?Diz...mulher
- O que? Não lembro
- Diz que você não sente por mim!
- O que eu não sinto por você?...Nada..eu não sinto nada..por você...nem ódio..nem culpa..nem ressentimento..nem nada...
-Nem amor?
- É...nem...
- O que? Diz.
- Nem...
- Diz logo
- É...nem amor.
- pois é minha filha...por isso não podemos ficar chorando feito dois idiotas separados...senao a vida fica ilógica, entendeu? É necessário lógica! Lógica simbólica, lógica matemática! Separou, não se ama mais.

[...]

Minha cara no espelho... Fala comigo...
“Boa noite, senhor, que lhe aconteceu?: O senhor esta transtornado!”
“É o seguinte, amigo traunsente espelhar, eu era feliz na minha mediocridade, até que uma mulher replicante fez isso comigo, uma mulher biônica chamada Carmem, uma batedeira de ovos que evoluiu!”...
“Não brinque comigo robô!!! Diga seu numero de serie! Over!
“Meu numero de serie é 2,447 e fui construído em 1949 pelo engenheiro sul vietinamita Fuck Ya... Meu nome é Daisy... would you like to hear a song?”
“Yes Daisy, sing to me!!!!”
“Daisy, Daisy, give your answer, do, I go crazy just for the love of you…”
Vou soprar vapor no espelho e desenhar minhas lagrimas…

Ele esta trancado no banheiro...acho que vou embora...ave Maria...Nem rezar sei mais...vou-me embora dessa casa e sair por ai. Como vai ser bom eu sair por ai molhando os pés...até o Leblon...encontrar o Tom Jobim ... se o Tom Jobim se apaixonasse por mim poderia me salvar...me salvaria dessa merda... e eu diria: “Querido...o Tom... me ama e como você é inferior a ele hierarquicamente na escala da humanidade, como ele compôs musicas lindas como Lygia e tua obra prima é aquele jingle em que a gelatina Royal dança um samba com o pudim Royal..
Ah meu deus... ele saiu do banheiro...


- Já vou indo, meu bem...
- Também acho melhor...
-Bye Bye!

[...]


Meu deus! Ele ficou louco! Esta andando pela casa, falando sozinho... ele não me vê aqui no canto da parede...

- Sabe quem você é? Sabe? Ouça bem... Faz de conta que você esta na minha frente no fundo de um beco, sem ninguém olhando...eu vou sumir no mundo...mas antes você vai saber quem você é...você é um tubo! Um tubo...é....e por cima do tubo entra a comida, que desce ate o intestino e sai em forma de merda do outro lado, sabia? Esta é a primeira humildade que um ser humano tinha de ter: eu sou um tubo.Um tubo processador de merda..começa ai a humildade...mas pensam que ela sabe que e um tubo de merda? Não. Ela não sabe que e um tubo, ela pensa que e diferente dos outros tubos... do resto do mundo...”Não eu sou uma pessoa simples...doce..meu defeito é que sou doce demais mas eu quero um dia desreprimir minha agressividade!... mas eu sou doce!” Doce é o limão minha filhinha...doce é o mais ardido dos limões perto da tua crueldade absoluta... nunca confie, meu amigo, numa delicadeza doce!... Daí é que sai a morte!

continuação

[...]

- Falando sozinho seu filho da puta?

Ela! Ela! Ela não partiu...estava aqui o tempo todo! Estou perdido.

- Meu anjo! Minha querida!!! Ora querida...você ainda esta ai?Que surpresa...mas olha, não leve a mal o que eu disse, não!
- Silencio! Eu quero um longo silencio agora para mim...

[...]

Você queria a verdade? Esta tendo tudo...Dai em diante, não parei mais...finalmente eu não tinha mais culpa na alma, de noite eu te beijava e pensava...sou uma criminosa...finalmente livre...Fui todas as mulheres...a rainha do streptease... Mis Brasil... Vênus.
- E teve outros?
- Muitos...
- Quem?
- Gente que passava...homens que passavam nas ruas...homens do Brasil...rapazes... senhores...bancários...vendedores de remédio...e eu era uma...um...serviço social...eu fazia um serviço social aos homens do meu Brasil.

[...]

- Enquanto eu trabalhava você dava para os homens do Brasil?
- É...servia o exército...
- Mas nenhuma culpa?
- Nenhuma... só alegria...eu pensava: “ Ele esta trabalhando...” E era melhor ainda. As vezes eu ligava do motel...é...

Meu deus estou ficando excitado. Eu sou o mais sujo dos homens!...

[...]

- Não me arrependo um segundo... Eu me sentia totalmente desamparada... desamparada...no mundo vazio...e eu louca...a vida só é vida no limite da loucura...só assim vale viver...desamparada...louca e desamparada.
- Ótimo, então podemos dar um fim a esta sessão de sadomazoquismo? A senhora vai para a casa desamparada e eu vou tomar um porre na grande noite do rio, hoje vou tomar um porre de gim. Passar três dias em coma, ah vou.

[...]

Será que eu nunca mais vou te esquecer? Será que nunca mais vou olhar para um espelho sem ver você refletida? Será que nunca mais vai chover sem eu ver a chuva molhando o teu rosto?

[...]

- Agora que terminou tudo podemos ver a beleza que existe um no outro...é isso.. já vou indo...vou embora...tchau!
- Não vá...

[...]

- Ai meu deus! Ai que alivio!
- Ai que peso que saiu...ai, que horror o tal amor pegajoso e nojento, feito dois sapos grudados!... ai que alivio.
- Que maravilha! Vida nova! Vida nova!!! Uma coisa mais moderna...mais feliz, mais livre!
- É! Mais punk, mais fliperama...mais musica eletrônica!
- É... mais digital, mais cibernética! Mais 2001 dos espaços siderais!
- Um drinque! Um drinque ao nosso futuro feliz!
- O amor é narcisismo...instituição narcísica...depois de Freud...todo mundo sabe.
- Depois de Marx, querida...milhões morrendo de fome...capitalismo, reprodução da propriedade privada...reacionarismo!!! Pelo amor de deus!
- Amor é pra vender jeans na televisão...

[...]

- Fica mais um pouco...
-Não, eu tenho que ir indo... Bye bye!
- Pois olha, querida, agora que você esta ai com a porta entreaberta, pronta pra sair, eu preciso te dizer uma coisa da maior seriedade, uma coisa fundamental que é essencial para a verdade dos nossos sentimentos, a verdade da nossa relação. É uma coisa sentimental. Básica! Básica! Basilar.
-Estou ouvindo, o que é?
- É o seguinte: Eu queria, desejaria, mais que tudo, eu ardo, quero desejo, que você fique parada ai e eu venha e lamba teu corpo todo, com minha língua e vou subindo chupando as bordas das tuas roupas, os elásticos da sua calcinha, chupando o interior das tuas cochas, chupar tua boceta, teu umbigo, chegar ate sujar minha cara de batom, rímel e beijar a tua boca e ficar agarrado nos teus cabelos e pronto, ficar enforcado nos teus cabelos, pendurado, balançando, balançando nos teus cabelos, todo esporrado, com tua baba escorrendo na minha boca, isso que eu quero te dizer, na maior seriedade, na boa.
- Não! Não, pelo amor de deus! Não estraga tudo! Nem pensar...

Se ele me pegar eu deixo....a mão dele no meu peito...

[...]

- Eu queria dizer...

Um beijo fecha a minha boca, um beijo fecha a minha boca!



[Trechos do livro "Eu sei que vou te amar", de Arnaldo Jabor]

quarta-feira, 22 de abril de 2009

O peptídeo

A ciência, essa safadinha, só pensa em sexo. Todo dia surge uma pesquisa com uma novidade bombástica sobre meninos e meninas. A última delas é a descoberta , nos Estados Unidos, da substância química "responsável pelo orgasmo feminino". Parece que, à revelia de nós, homens, existe uma substância que faz a mulher sentir todas aquelas vibrações impublicáveis e gritar, gemer e subir pelas paredes.Quer dizer: se você pensa que, ao ir para a cama com uma mulher, são as suas carícias e habilidades que provocam tudo aquilo na bem-amada, engana-se. Na verdade, trata-se de um reles componente químico que os cientistas conseguiram isolar e enfiar num vidrinho, ao qual pregaram o frio rótulo "Orgasmo".
E não é sequer uma substância charmosa, como soem ser os fluidos corporais trocados entre o homem e a mulher durante o ato. Essa substância, não. Os próprios cientistas classificaram como o escatológico nome de "peptídeo intestinal vaso ativo". É uma espécie de neurotransmissor que faz misérias ao percorrer um vago nervo chamado, por coicidência, nervo vago - o qual vai do colo do útero da mulher até o cérebro, passando pelo abdômem, pelo tórax e por outros caminhos que o recato me impede de mencionar. Enfim, é isso que provoca na mulher todos aqueles fabulosos calores e arrepios. Você não passa de um coadjuvante do peptídeo.De repente, podemos nos perguntar por onde andou o peptídeo nesses milhares de anos que homens e mulheres tem-se exercitado na arte de receber e dar prazer uns aos outros - aliás com bastante sucesso. Sim, pois, se até hoje as mulheres não sabiam do peptídeo, como se viraram? A resposta é que com ou sem o peptídeo, as mulheres sempre se viraram muito bem. Resta ver agora se, sabendo que carregam dentro delas essa arma terrível que é o peptídeo, continuaram a ter orgasmos múltiplos ao simples toque de um homem - ou se ficaram paradas esperando que o peptídeo trabalhe, enquanto um homem se desdobra tentando fazer a sua parte.
Pensando bem a descoberta do peptídeo pode ter um lado positivo para o homem. Até agora, nas relações sexuais acadêmicas(sem o peptídeo), o homem sempre levava desvantagem: era o único que não podia fracassar e, pior, nem mesmo esconder o próprio fracasso. A mulher era a primeira a perceber quando o sujeito não se apresentava devidamente evernizado. Já quando ela própria não correspondia às expectativas masculinas, o homem não podia dizer nada. Mas agora pode: se perceber que a mulher está com uma excitação deficiente ou coisa assim, ele estará autorizado a dizer ou, pelo menos, pensar: "É o peptídeo, meu bem. Você está com carência de peptídeo. O seu peptídeo brochou".
É claro que o homem nunca fará isso. Ele será tão magnâmico com a mulher quanto os milhões de mulheres tem sido compreensivas com os homens em situações semelhantes. Diante da frigidez feminina, o homem dirá carinhosamente: "Relaxe querida, fume um cigarro. Vamos falar de outra coisa. O peptídeo é um boboca, não sabe o que está perdendo. Ao mesmo tempo as mulheres poderão se justificar cientificamente: "Não entendo! Isso nunca me aconteceu antes! Só pode ser o peptídeo!". E o homem a cobrirá de carinhos e beijos, sabendo que a culpa é dessa coisa desagradável que tem nome de purgante ou de lagarto em perigo de extinção.
Os cientistas não de contentaram em descobrir o peptídeo. Afirmam que, a partir daí, será possivel produzir uma pílula que irá direto ao cujo, fazendo-o dar cambalhotas e, com isso, provocando o orgasmo feminino. Não por coicidência, uma das cientistas é mulher. Não conheço a biografia dessa senhora, mas há algo de suspeito numa cientista interessada em inventar uma pílula que dispensa o homem. Resta ver se ela conseguirá produzi-la.
Mas, se conseguir, é fácil prever uma cena do futuro próximo. Entre os lençóis o sujeito arrasta a asa para a mulher, todo cheio de ótimas intenções. Mas mulher se vira para o canto e manda o sujeito dormir, dizendo:
"Hoje não, meu bem. Já tomei a pílula do peptídeo."

CASTRO; R. - Amestrando orgasmos.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Frase do dia.

"Não há solidão mais vil do que a do sexo sem amor."

RODRIGUES; N.

sábado, 18 de abril de 2009

Formosa

ninguém tem nada de bom
sem sofrer

MORAES; V.

de tati

Quanto nome o mundo inventa. Pra quê? É tudo pinto. Absolutamente tudo.
E o que não é, é a falta dele.
O que não é sexo, é o oposto do sexo.
E aí volta duas vezes mais forte.
Tipo nosso não estar. O castrado da vida.

BERNARDI., T.

Deixe minha culpa em paz

Todos, aviso: todos!, pedem para que me livre da culpa. Assuma meus atos.
A culpa estragaria, a culpa imobilizaria, a culpa nos induziria a enganos. O problema é sempre da culpa. Não desperdiço, não jogo fora a minha culpa. Minha culpa é pai e mãe, é Espírito Santo.
Família é boa para gerar traumas, aproveitemos, traumas são as únicas lembranças que não serão esquecidas. A culpa nos torna atentos, missionários dos cílios.
O homem só é romântico com a culpa. As flores criminosas crescem à vontade na ponta de seus dedos. Homem culpado é humilde e amoroso como um chapéu na cadeira, um avental no gancho. O sexo é muito mais intenso e voraz com a culpa. Trepa-se como se fosse a última vez sempre. Os pais pedem desculpas pela culpa. Largam a arrogância dos castigos pela audição dos pés. Os bichos aprendem seus hábitos pela culpa. Trocam o cativeiro pela obediência.
Culpa, ó palavra bonita, gostosa de se repetir, dádiva próxima do perdão. Culpa é voltar para o lugar que nascemos. É se arrepender antes de fazer e continuar fazendo. Uma teimosia que nos leva à perfeição dos erros. Um erro perfeito é virtude.
A culpa, não consigo parar de repeti-la, não nos resolve, é um tratamento sincero. Não nos salva, é uma verdade médica. Percebemos que sempre nos enganaremos. Mas é se enganar com gosto, com vontade. Quem procura se curar é careta. A culpa não tem cura, é libertina, libertadora, retirar adrenalina de todo pecado. Ou alguém nunca se sentiu culpado por nascer? Culpado por amar? Culpado por ser sincero? Culpado pelo talento ou pela falta de talento?
Não pretendo pagar a conta sozinho. Sem culpa, eu me isolo, eu me vejo independente e pronto. Consumido. Não há vela que não se derreta por todos os lados.
[...]
Culpa me limita, me põe a recuar na raiva, a desistir da arma e da faca, me violenta antes que cometa violências. Ninguém mata o outro com culpa. A culpa é civilizada.
[...]
Não bancarei minhas falhas, não sumirei com a nota fiscal da taverna. Se não gozar, coloque a culpa nela. É melhor do que arrebentar de estresse. Se não for feliz, coloque a culpa nele. É melhor do que problema nos intestinos. Não tome as culpas para si, não seja egoísta. Doe sua culpa para doer menos. Culpa é contagiosa.
Não procure manter a pose de esclarecido, centrado, tranqüilo. A teoria não prevê um cavalo atravessando um rio. Somos um cavalo nadando.




CARPINEJAR. F.

Ao vencedor, as tetas

[...]

Estou longe de ser a melhor mulher da noite mas odeio tanto essa merda toda que atraio gente. O primeiro chega, amigo do amigo da amiga. Quer ganhar minha atenção me diminuindo, o velho golpe do pau pequeno. Conta que namorou modelos como se eu fosse, a essa altura do campeonato, me preocupar com isso. Fico com vontade de explicar pra ele que tenho medo de fila de supermercado e não de modelo. Minha estranheza vai além das picuínhas de ego. Se eu conseguir me pentear amanhã ou dormir sem engasgar com insetos pink já me dou por satisfeita, querido.

[...]

Tati

sexta-feira, 17 de abril de 2009

de caio

Mas só muito mais tarde, como um estranho flash-back premonitório, no meio duma noite de possessões incompreensíveis, procurando sem achar uma peça de Charlie Parker pela casa repleta de feitiços ineficientes, recomporia passo a passo aquela véspera de São João em que tinha sido permitido tê-lo inteiramente entre um blues amargo e um poema de vanguarda. Ou um doce blues iluminado e um soneto antigo. De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito. E amar muito, quando é permitido, deveria modificar uma vida – reconheceu, compenetrado. Como uma ideologia, como uma geografia: palmilhar cada vez mais fundo todos os milímetros de outro corpo, e no território conquistado hastear uma bandeira. Como quando, olhando para baixo, a deusa se compadece e verte uma fugidia gota do néctar de sua ânfora sobre nossas cabeças. Mesmo que depois venha o tempo do sal, não do mel.

[Caio Fernando de Abreu]

terça-feira, 7 de abril de 2009

domingo, 5 de abril de 2009

http://www.youtube.com/watch?v=G8xJjsfuVVU

LAW; J.


Quando não estou no pêndulo insuportável de devorar ou vomitar, tenho meus minutos de contemplação. As coisas lá, eu aqui. As coisas lá. Eu aqui. E quando entendo que posso gostar de cinema sem ver filmes o tempo todo, e gostar de sumir sem fazer sexo ou dormir o tempo todo, e gostar de livros sem ler o tempo todo e amar alguém sem estar com ele o tempo todo, entendo o mais maravilhoso de tudo: que eu posso ser eu sem falar nisso o tempo todo. E fim de papo.


Tati Bernardi

sábado, 4 de abril de 2009

A dor que dói mais

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói. Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem. Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim. Mas o que mais dói é saudade.Saudade de um irmão que mora longe. Saudade de uma cachoeira da infância. Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais. Saudade do pai que já morreu.
Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu. Saudade de uma cidade. Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama. Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida. Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde. Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã.

Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno. Não saber mais se ela continua clareando o cabelo. Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu. Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu. Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.Saudade é não saber. Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.
Saudade é não querer saber. Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela. Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.


Martha Medeiros

É fundamental ter coração, ele que é o termômetro das coisas.

E essa parada de sofrer um monte só torna a gente melhor

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Sinuca do pescador

É o super-homem de Nietszche? Um romance? Um fabulário geral do hospício? As mitologias fragmentadas do discurso amoroso? Ficções de um hombre que vive sem medo da queda? Um gaveta de abismos? A arte do mal-dizer? Retrato do artista enquanto Campos Viejo? Assombrações para encorajar os covardes? Que porra é essa?, como ele mesmo diria, salivando o escárnio e a fome permanente de viver. Não adianta decifrar. Melhor jogar o taco sobre o pano cinza de la vida e pedir a conta.
[...]
Uma biografia guardada como velhas fotos numa caixa de sapato dum armário edipiano perdido. E se dói, mais um uísque caubói!
[...]
“Peréio, eu te odeio”, como no título do filme do Allan Sieber, que vem por ai, que venga! Peréio, o amor e o ódio, nunca alguma coisa de intermédio, pilar da ponte do tédio entre um e o outro, como no poema que recita na noite, à beira dos buracos da existência, salve salve Sá-Carneiro! Merda no amor, azar na sinuca, cadê aquela linda moça?E o cara perde a moça de vista, É CADA VEZ MENOS, garoto, e vai compondo tangos e assobiando desesperos na longa viagem ao fim da noite, assim como passarinho que caga sobre as folhinhas do calendário, agora a bola mais difícil, a bola escondida, viver é sinucar-se ao infinitum, foda-se.
[...]
"Foi como montar um quebra cabeça sem imagem pra copiar - olhar, sei lá...”, diz Pinky Wainer, a autora da façanha de fazer dos guardados desse grande homem um grande livro. Sem essa de o homem, o mito, a lenda viva. Peréio tira onda também disso tudo. Nós bebemos, não temos esses problemas de nos autoesculhambarmos sob o o mesmo teto da taberna. Mas pelo menos que tenha uma sinuca. Pra gente nos entretrer com os buracos da existência. Garçon!, o uísque e o seu duplo, como sempre, muito gelo, muito gelo, copo longo, mas sem metáforas, faz favor!

[Sinuca do Pescador, resenha escrita por Xico Sá sobre o livro Só vale o escrito – delicadezas de Paulo César Peréio ]

quarta-feira, 1 de abril de 2009

/S



na volta, traz um maço de cigarro.

Páscoa

Chocolate é um ótimo remédio para a TPM. Por isso que as mulheres e os chocolates são tão parecidos: algumas são gostosas, outras são amargas, mas para se obter você precisa ter bom "cacau".
Por issoacho que a páscoa é feita para as mulheres. Pense bem: a semana é santa, a sexta feira é da paixão, o sábado é de aleluia e o somingo você ganha um ovo com gosto de chocolate.
Se fosse feriado para homens, a semana seria de zona: sexta feira da boate, sábado do futebol e no domingo você ganharia uma teta com gosto de cerveja.


[Diogo Portugal]